A arte da procrastinação estruturada

Acho que um tópico mais do que justo depois desse breve desaparecimento (sinto muito por isso, aliás) é a famosa procrastinação. Mais especificamente, a procrastinação estruturada, que é um termo inventado por John Perry, professor de filosofia. Eu peguei o livro dele (The Art of Procrastination, ou A Arte da Procrastinação) emprestado com uma amiga há algumas semanas, e quando eu finalmente parei de procrastinar o suficiente pra ler, me identifiquei com muito do que ele fala.

Basicamente, Perry diz que procrastinação não é uma falha de caráter ou de personalidade que deve ser corrigida a qualquer custo, como nos convenceram os que não têm esse problema. Ela pode ser um obstáculo ou pode ser simplesmente um método diferente de cumprir tarefas, principalmente se você for, como eu, um procrastinador estruturado.

Procrastinadores estruturados são aqueles que evitam fazer uma tarefa importante (como escrever um trabalho da faculdade, por exemplo) fazendo tarefas rápidas e menos importantes e urgentes, como reorganizar sua biblioteca de música. Desse jeito, eles continuam se culpando por não fazerem o que deviam estar fazendo e não serem produtivos, mas na verdade estão fazendo muitas coisas.

Se você tem uma lista geral de coisas que você tem que fazer, ela provavelmente está organizada por ordem de importância, ou seja, a ordem que você idealmente devia estar seguindo. Só que raramente cumprimos nossas tarefas de cima pra baixo. O mais comum é fazer uma mistura de coisas mais abaixo na lista e de vez em quando, quando não temos mais como adiar uma tarefa, fazer uma coisa importante. As tarefas funcionam como se em uma relação de poder, no qual quanto mais importante e menos urgente uma tarefa é, mais tarefas menores serão realizadas. Isso parece contraproducente, mas, na verdade, acabamos fazendo muitas coisas enquanto evitamos o que deveríamos estar fazendo.

Ou seja, você pode parar de se sentir culpado por fazer isso e começar a pensar em quantas tarefas você não teria feito se não estivesse procrastinando! Esse tipo de pensamento vai deixar você se sentindo menos culpado e mais apreciativo pelo quanto você está alcançando.

John Perry também fala sobre como muitos procrastinadores são perfeccionistas, ou seja, querem ver suas tarefas cumpridas à perfeição, e, quando estão animados para fazer uma tarefa grande, ficam imaginando o quão perfeito será o resultado e quão satisfatório vai ser cumprir essa tarefa. Nesse meio tempo, acabamos fazendo todo tipo de coisa que achamos que estão nos deixando mais prontos para cumprir a grande tarefa, como apontar todos os nossos lápis e arrumar nosso espaço de trabalho,  mas na verdade não estão nos deixando mais perto de nada. Estamos usando essas tarefas percebidas para procrastinar fazer a grande tarefa. Isso não deixa de ser procrastinação estruturada porque, bem, alguma hora você ia ter que arrumar sua mesa e apontar todos os seus lápis, né?

O que acontece nesses casos é que a ideia maravilhosa de fazer tudo perfeito some, porque sabemos que não temos mais tempo pra fazer um trabalho perfeito. A nossa fantasia se torna mais humilde: basicamente, só queremos terminar a tarefa para não tirarmos zero ou chamarem nossa atenção no trabalho. É nessa hora que acabamos realmente fazendo o que temos que fazer, e é assim que as grandes tarefas são cumpridas.

Bom, ou assim ou porque apareceram coisas mais importantes do que ela e ela acabou indo parar mais abaixo na lista, o que significa que podemos usar ela pra procrastinar fazer outra coisa.

O autor admite que não tem uma solução pronta para largar esse tipo de comportamento, mas algumas coisas podem ajudar. Assim como eu, ele reconhece que ter listas de papel, aonde você pode riscar tarefas feitas, são muito mais motivantes de cumprir do que listas digitais aonde uma tarefa desaparece depois de cumprida, e pode não te dar aquele sentimento de tapinha nas costas que riscar uma tarefa da lista te proporciona.

Além disso, tanto Perry quanto eu achamos uma boa ideia dividir as grandes tarefas em sub-tarefas menores. Por exemplo, se você tem que escrever um trabalho de 15 páginas, talvez seja útil e te motive mais se você tiver várias tarefas pequenas como achar referências, ler referências, escrever tópicos, etc. Isso também te ajuda a medir de maneira mais eficaz o quanto você está de fato fazendo, porque você pode ver que fez algumas coisas mesmo não tendo terminado a grande tarefa.

Um ponto interessante apresentado no livro que eu nunca tinha considerado é colocar na sua lista diária coisas que você NÃO DEVE fazer. Por exemplo, se você sabe que você tem uma tendência grande a não tomar café da manhã porque você quer dormir 30 minutos a mais, pode te ajudar botar “não dormir 30 minutos a mais” na sua lista. Desse jeito, o tapinha nas costas de marcar que você não fez uma coisa que devia evitar te dá mais motivação para fazer o que você tem que fazer e de quebra você acaba se sentindo uma pessoa em pleno controle de si mesma.

É importante observar que vão haver dias que, por um motivo ou outro, você não vai fazer nem as tarefas menos importantes, e isso não tem problema nenhum. Alguns dias são mais difíceis que outros e é importante estar focado no panorama geral da sua vida, e o quanto ele parece positivo ou negativo para você, e não outras pessoas.


Reflexões de hoje:

Eu sou um procrastinador? Se sim, eu sou um procrastinador estruturado?

O quanto a minha procrastinação tem a ver com perfeccionismo?

Meu perfeccionismo ou minha procrastinação me incomodam, pessoalmente?

Quais as coisas que eu não devo fazer que eu devia incluir em minha lista diária?

O que me motiva a cumprir mais tarefas?

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4 comentários sobre “A arte da procrastinação estruturada

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